Ano passado
durante a campanha eleitoral para prefeito me questionei sobre o papel do voto
na estrutura política. Qual o seu poder? Em que medida ele muda a sociedade? Se
o ato de votar é exercer, de fato, a democracia?
Cheguei a
conclusão que o voto é quase nada. Que embora o ato de votar seja exercer de
direito a democracia, não é exercê-la de fato. Que o votar não muda nada, é uma
mera ilusão. E que o voto é abrir mão do poder político (ou simplesmente se
eximir das responsabilidades políticas). Resumindo, votar é somente mudar as
moscas que rodeiam a merda em que vivemos.
Uma heresia
dizer isso na cara de quem saiu as ruas pelas diretas, ou pra quem foi
torturado por lutar por democracia? Crime hediondo dizer isso na cara das
famílias de quem perdeu a vida ou desapareceu lutando por um país democrático?
Pode ser, posso ser herege e criminoso. Mas continuo pensando que o voto por si
só não muda nada ou só as moscas.
Explico: Eu
acredito que em uma democracia o povo escolhe seus representantes para que estes o represente,
nas diversas esferas deliberativas. Entendendo que representar não significa
decidir por si só, mas sim levar a decisão ou vontade coletiva dos
representados a estas esferas deliberativas. Dessa forma, as leis que regem a
cidade, o estado, ou o país estariam em consonância com a vontade popular.
Ouvi que era
utópico. Ouvi que funcionaria, mas em uma escala muito pequena, que em uma
cidade do tamanho de São Paulo isso nunca daria certo. Calei-me e fiquei com
minha utopia escondida em um lugar seguro. Votei, acreditando nas palavras de
uma mosca. Troquei a mosca que comanda minha cidade, esperando que esta mudasse
os rumos do meu cotidiano urbano. Xinguei quando não vi atendidas, pela nova
mosca, as reivindicações dos professores. Xinguei outra vez a mosca nova, por
ter que pagar 0,20 a mais pela tarifa do transporte público (precário e
insuficiente). Fui pra rua (11/06) reivindicar com outros, descontentes como
eu, o recuo do aumento (e no futuro um serviço gratuito para todos). Não
acreditava que fosse possível, mas fui. Eu (e os meus companheiros
desconhecidos) tomamos chuva, passamos frio, fomos atacados pela polícia e no
fim daquele dia eu vi, feliz, que a ainda que fossemos poucos (mais de dez
mil), éramos barulhentos, e estávamos juntos por um objetivo que beneficiaria
toda a cidade ("uma cidade do tamanho de São Paulo").
Tirei minha
utopia do esconderijo e fui pra rua novamente (13/06). Estavam lá os mesmos dez
mil, ou talvez outros diferentes. Caminhamos, gritamos, xingamos, acho que
quebramos alguns bancos (nada que os juros abusivos não compensem em um ou dois
dias) pichamos alguns ônibus e queimamos algumas lixeiras. Fomos atacados pela
Tropa de Choque, violentamente atacados. No fim do dia minha utopia havia
crescido e agora já era ela quem me carregava e me escondia das bombas de gás e
tiros.
No dia
seguinte (14/06), as famílias donas de jornais e TV, noticiavam a truculência
da polícia a qual atacara a todos indiscriminadamente, incluindo-se aí seus
empregados. Nos pintaram como quase anjos. Resolveram misteriosamente nos
defender. Disseram que uma minoria que nada tinham a ver com O EVENTO tinham
depredado, incendiado, quebrado, pichado. Disseram também que os verdadeiros
manifestantes eram pacíficos. Mas TODOS nós éramos verdadeiros manifestantes,
com a nossa verdadeira raiva, com o nosso verdadeiro inconformismo, com a nossa
verdadeira luta, com os nossos verdadeiros excessos.
Longe que
estavam, as moscas não nos ouviram, os sons de Paris abafavam nossas vozes.
Outro dia veio e com ele outros companheiros vieram, e agora éramos muitos nas
ruas (17/06 200 mil?). Nos dividimos em dois e ainda éramos muitos. O CHOQUE
não aparecera, a PM não dera as caras. Tomamos a cidade. Gritamos, xingamos,
exigimos. E eram muitas exigências. Exigíamos de tudo e pra ontem. Tínhamos
urgência. Quase não quebramos nada desta
vez.
No dia
seguinte eu estava ausente (18/06). Recebi, dos empregados das famigeradas
famílias que controlam os jornais e TVs, as notícias daquele dia. Continuavam a
dizer que éramos, em nossa imensa
maioria, (c)ordeiros e pacíficos, que alguns poucos criminosos a paisana haviam
se infiltrado no movimento para cometer crimes. Não sei se falavam de policiais
ou bandidos. Diziam como deveríamos nos portar nas manifestações. Umas poucas
famílias ditando discretamente as regras.
As moscas que comandam a cidade nos ouviram. Recuaram do aumento da
tarifa (19/06). Foi um dia pra ser lembrado por muito tempo e para servir de
exemplo. Dia em que minha utopia pode se reconhecer como realidade (ainda em stand by). Foi uma semana na qual vivenciamos
uma democracia de dicionário. Impusemos nossa vontade que se desdobrou em outra
vontades e nos vimos vivos, alertas e atuantes.
Dia seguinte: fui pra rua. 20/06 outro dia para ser lembrado por muito
tempo, mas por outros motivos. Meus dez mil companheiros desconhecidos de
chuva, bombas e bandeiras haviam se diluído entre outros milhares. Soluto em
solvente cuja solução resultante tinha uma baixíssima concentração de
inteligência. Massa acéfala gritando absurdos, incitando ódio a partidos,
pessoas e ideias. Gente PROIBINDO cores
e bandeiras. Gente carregada de propostas estapafúrdias e palavras de ordem
vazias. Vi a violência contra representantes de partidos políticos, como se
fossem eles as causa de todas as mazelas do país. Vi nazistas e fascistas
desfilarem na avenida. Vi vociferarem a favor da troca das moscas, como se
trocar as moscas mudasse a merda toda. Vi
o "GIGANTE ACORDADO" pedir por um herói (de toga) que nos tiraria do
atraso. Mas, sonolento, não percebeu que não precisamos mais de heróis para nos
salvar. Sonolento, ainda demorará a perceber
a intenção das famigeradas famílias a lhe conduzir os passos.
Esse revolucionário mês de junho (apesar do dia 20 e das famigeradas
famílias), mostrou que a democracia se faz nas ruas, muito mais que nas urnas.
Mostrou que democracia é atuação política. Mostrou que votar e ficar esperando
que as coisas mudem é ingenuidade e que se as pessoas não cobrarem,
veementemente, nada muda. Mostrou que não precisamos de heróis. Mostrou é
preciso aprender a separar as esferas dos poderes para ser mais efetivo nas
cobranças. Mostrou que é preciso ficar
de olho nos reaças e nas famigeradas famílias. Mostrou que não devemos guardar
utopias na gaveta.
(Marcos Aurélio)
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