terça-feira, 2 de julho de 2013

NÃO DEVEMOS GUARDAR UTOPIAS NA GAVETA



Ano passado durante a campanha eleitoral para prefeito me questionei sobre o papel do voto na estrutura política. Qual o seu poder? Em que medida ele muda a sociedade? Se o ato de votar é exercer, de fato, a democracia?

Cheguei a conclusão que o voto é quase nada. Que embora o ato de votar seja exercer de direito a democracia, não é exercê-la de fato. Que o votar não muda nada, é uma mera ilusão. E que o voto é abrir mão do poder político (ou simplesmente se eximir das responsabilidades políticas). Resumindo, votar é somente mudar as moscas que rodeiam a merda em que vivemos.

Uma heresia dizer isso na cara de quem saiu as ruas pelas diretas, ou pra quem foi torturado por lutar por democracia? Crime hediondo dizer isso na cara das famílias de quem perdeu a vida ou desapareceu lutando por um país democrático? Pode ser, posso ser herege e criminoso. Mas continuo pensando que o voto por si só não muda nada ou só as moscas.

Explico: Eu acredito que em uma democracia o povo escolhe seus representantes para que estes o represente, nas diversas esferas deliberativas. Entendendo que representar não significa decidir por si só, mas sim levar a decisão ou vontade coletiva dos representados a estas esferas deliberativas. Dessa forma, as leis que regem a cidade, o estado, ou o país estariam em consonância com a vontade popular.

Ouvi que era utópico. Ouvi que funcionaria, mas em uma escala muito pequena, que em uma cidade do tamanho de São Paulo isso nunca daria certo. Calei-me e fiquei com minha utopia escondida em um lugar seguro. Votei, acreditando nas palavras de uma mosca. Troquei a mosca que comanda minha cidade, esperando que esta mudasse os rumos do meu cotidiano urbano. Xinguei quando não vi atendidas, pela nova mosca, as reivindicações dos professores. Xinguei outra vez a mosca nova, por ter que pagar 0,20 a mais pela tarifa do transporte público (precário e insuficiente). Fui pra rua (11/06) reivindicar com outros, descontentes como eu, o recuo do aumento (e no futuro um serviço gratuito para todos). Não acreditava que fosse possível, mas fui. Eu (e os meus companheiros desconhecidos) tomamos chuva, passamos frio, fomos atacados pela polícia e no fim daquele dia eu vi, feliz, que a ainda que fossemos poucos (mais de dez mil), éramos barulhentos, e estávamos juntos por um objetivo que beneficiaria toda a cidade ("uma cidade do tamanho de São Paulo").

Tirei minha utopia do esconderijo e fui pra rua novamente (13/06). Estavam lá os mesmos dez mil, ou talvez outros diferentes. Caminhamos, gritamos, xingamos, acho que quebramos alguns bancos (nada que os juros abusivos não compensem em um ou dois dias) pichamos alguns ônibus e queimamos algumas lixeiras. Fomos atacados pela Tropa de Choque, violentamente atacados. No fim do dia minha utopia havia crescido e agora já era ela quem me carregava e me escondia das bombas de gás e tiros.

No dia seguinte (14/06), as famílias donas de jornais e TV, noticiavam a truculência da polícia a qual atacara a todos indiscriminadamente, incluindo-se aí seus empregados. Nos pintaram como quase anjos. Resolveram misteriosamente nos defender. Disseram que uma minoria que nada tinham a ver com O EVENTO tinham depredado, incendiado, quebrado, pichado. Disseram também que os verdadeiros manifestantes eram pacíficos. Mas TODOS nós éramos verdadeiros manifestantes, com a nossa verdadeira raiva, com o nosso verdadeiro inconformismo, com a nossa verdadeira luta, com os nossos verdadeiros excessos.

Longe que estavam, as moscas não nos ouviram, os sons de Paris abafavam nossas vozes. Outro dia veio e com ele outros companheiros vieram, e agora éramos muitos nas ruas (17/06 200 mil?). Nos dividimos em dois e ainda éramos muitos. O CHOQUE não aparecera, a PM não dera as caras. Tomamos a cidade. Gritamos, xingamos, exigimos. E eram muitas exigências. Exigíamos de tudo e pra ontem. Tínhamos urgência.  Quase não quebramos nada desta vez.

No dia seguinte eu estava ausente (18/06). Recebi, dos empregados das famigeradas famílias que controlam os jornais e TVs, as notícias daquele dia. Continuavam a dizer que éramos, em nossa  imensa maioria, (c)ordeiros e pacíficos, que alguns poucos criminosos a paisana haviam se infiltrado no movimento para cometer crimes. Não sei se falavam de policiais ou bandidos. Diziam como deveríamos nos portar nas manifestações. Umas poucas famílias ditando discretamente as regras.
As moscas que comandam a cidade nos ouviram. Recuaram do aumento da tarifa (19/06). Foi um dia pra ser lembrado por muito tempo e para servir de exemplo. Dia em que minha utopia pode se reconhecer como realidade (ainda em stand by). Foi uma semana na qual vivenciamos uma democracia de dicionário. Impusemos nossa vontade que se desdobrou em outra vontades e nos vimos vivos, alertas e atuantes.
Dia seguinte: fui pra rua. 20/06 outro dia para ser lembrado por muito tempo, mas por outros motivos. Meus dez mil companheiros desconhecidos de chuva, bombas e bandeiras haviam se diluído entre outros milhares. Soluto em solvente cuja solução resultante tinha uma baixíssima concentração de inteligência. Massa acéfala gritando absurdos, incitando ódio a partidos, pessoas e ideias.  Gente PROIBINDO cores e bandeiras. Gente carregada de propostas estapafúrdias e palavras de ordem vazias. Vi a violência contra representantes de partidos políticos, como se fossem eles as causa de todas as mazelas do país. Vi nazistas e fascistas desfilarem na avenida. Vi vociferarem a favor da troca das moscas, como se trocar as moscas mudasse a merda toda.  Vi o "GIGANTE ACORDADO" pedir por um herói (de toga) que nos tiraria do atraso. Mas, sonolento, não percebeu que não precisamos mais de heróis para nos salvar.  Sonolento, ainda demorará a perceber a intenção das famigeradas famílias a lhe conduzir os passos.
Esse revolucionário mês de junho (apesar do dia 20 e das famigeradas famílias), mostrou que a democracia se faz nas ruas, muito mais que nas urnas. Mostrou que democracia é atuação política. Mostrou que votar e ficar esperando que as coisas mudem é ingenuidade  e  que se as pessoas não cobrarem, veementemente, nada muda. Mostrou que não precisamos de heróis. Mostrou é preciso aprender a separar as esferas dos poderes para ser mais efetivo nas cobranças.  Mostrou que é preciso ficar de olho nos reaças e nas famigeradas famílias. Mostrou que não devemos guardar utopias na gaveta.

(Marcos Aurélio)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

DO CRAVO A ROSA



DO CRAVO A ROSA

Nas pétalas vermelhas do cravo
morava  uma alma rosa  de rosa
e é tão viva esta alma que
aos poucos o cravo faz-se rosa
embora não exista
no cravo o DNA da rosa

trocam-se as pétalas
trocam-se as folhas
ganham-se os espinhos
segue-se, muitas vezes,
sozinha pelo caminho


Segue, ainda que margaridas neguem
seu direito e que marias-sem-vergonha
digam, sem pudor, embaraço ou pejo
ser uma vergonha que tenhas tais desejos.

Segue, porque ainda que crisântemos
desabrochem seus venenos
é seu, inteiramente seu, esse direito.

Segue,  porque brota  do seu peito,
a verdade de uma rosa decidida
A despeito das violências  violetas,
 invejas e margaridas reprimidas.

Segue, e mostra a lírios e delfins que
Quem  outrora esteve presa em outra flor
Mostra-se agora nas pétalas de uma rosa
desabrocha desejando o sol de primavera
embora haja sempre inverno a toda rosa nova.



sexta-feira, 16 de novembro de 2012


PRA TE ENCANTAR
 

Eu crio fatos
invento estórias e
junto os pontos
pra te encantar.

 

Eu crio ondas
invento céu e mar e
junto as conchas
Pra te encantar


 

eu crio folhas
invento plantas e
junto as flores
pra te encantar

 

eu crio vento
invento chuvas e
junto os raios
pra te encantar.



Eu crio sóis
invento noites e
junto estrelas
Pra te encantar

 

eu me crio inteiro
e me reinvento e
me junto a ti.
Pra nos encantar.

Jan.2012

domingo, 7 de agosto de 2011

Coragem

Coragem.
É hora de sair no ninho por que
O destino dos passaros é o vôo.
E pr'além do medo da queda
há o instinto das asas.
A vida impele, ainda que
o medo não se desfaça.

Coragem.
A vida pulsa nas veias
e se espalha nas asas.
É hora do vôo
ouço o vento nas penas.

Coragem.
O mundo me chama
a uma vida nova,
assustadoramente nova
encantadoramente nova.

Coragem.
Por que pr'além do medo da queda
há o instinto das asas.
Por que o destino dos pássaros
é o vôo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Globalização

Tem de tudo
em todo lugar
Tudo tende a ser o mesmo
Com pessoas iguais
Consumindo igual as mesmas coisas

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Palavras (parte 1)

Dizia-se que o talento escondido em um canto qualquer da casa não o fez autor de grandes textos. Ele também não tinha sensibilidade para apreender o mundo ao redor, apreender as sutilezas dos gestos mais delicados entre as pessoas. Ele não tinha o talento essencial para se tornar um bom artista embora pretendesse ser um.


Ele quisera encontrar seu talento... procurou por horas em cada canto da casa e a casa sempre revelava quartos e salas que ele desconhecia. Pensou em desistir, mas a vontade de estar entre os grande autores não o deixou parar. procurava em baixo de cada móvel, dentro de cada vaso, entre as letras e melodias das músicas preferidas, entre as cores dos quadros prediletos, entre os peixes do aquário.


E como sempre acontece quando procuramos alguma coisa, achamos outras perdidas há muito tempo. Assim ele encontrou a técnica em oratória, a gramática, o dicionário. Ficou contente com o achado, pensara, na ocasião, que aquilo era suficiente para torná-lo um dos grandes mestres, quiçá o maior deles todos.


Então, munido com sua técnica em oratória, seu dicionário e sua gramática, ele começou a escrever. A princípio poemas (alexandrinos, camonianos; versos heróicos e sáficos; pentametros iâmbicos) tudo formalmente perfeito. Depois passou a escrever contos, estruturalmente, perfeitos. e também romances e peças teatrais. Mas faltava alguma coisa, suas palavras ainda não o faziam grande nem causava aos outros, alguma comoção. Ele não entendia, tinha tudo que um mestre das palavras precisava, todas a ferramentas, podia falar e escrever sobre tudo. Mas o que falta? Lembrou-se que embora tivesse todas as ferramentas, ainda não havia encontrado o talento e voltou a procurá-lo com mais vontade que da última vez. Olhou, novamente, atrás dos móveis, em baixo dos tapetes, nos armários da cozinha e no banheiro.


Cansado pensava em continuar a busca no dia seguinte, foi quando notou um brilho em baixo do sofá, havia olhado antes, mas não prestara atenção em brilho algum, mas agora estava lá. Um brilho discreto em meio a sombra do móvel. Ele levantou-se e foi até lá, ergueu o sofá e lá estava um pequeno pedaço de espelho refletindo a pouca luz que lhe alcançava. Um espelho, era somente um espelho. Durante algum tempo ficou a contemplar a imagem perdida no fundo do objeto, como se houvesse algo estranho e o espelho não refletisse a imagem que ele fazia de si, como se ele não fosse ele. Tentou se desfazer do espelho, não se reconhecia naquela imagem, mas inexplicavelmente o espelho se fixara na parede, e a cada dia, ele crescia. Cresceu ao ponto de tomar toda a parede de onde inevitavelmente refletia todo o interior da sala central da casa. Ele não podia mais fugir de quem era, e ele não era grande, e talvez nunca viesse a ser, via-se como realmente era.


Com o passar dos anos começara a ver-se diferente, estava verdadeiramente diferente. Quero ser eu mesmo, feliz com minhas qualidades e em paz com meus defeitos. Voltara-se pra si. Não quero ser maior do que sou, não quero alcançar o céu num salto nem mudar as estrelas de lugar, só me basta contemplá-las. É suficiente um arco-íris, um por do sol, um banho de chuva. Minha fantasia de grandeza se perdeu no reverso espelho, hoje me contenta falar do meu jardim, das primeiras flores que abriram, do meu abacateiro. Observar as pessoas que passam diante do meu portão. Hoje me contenta perceber como as pequenas coisas são grandes. .


Ele estava realmente mudado, adquirira agudeza de espírito, entendimento, inspiração. Seus poemas sem métrica, rima ou o rigor formal de outros tempos, mostravam-se cheios de sentido e significação, cheios de Poesia. Ele não escrevia para ser grande, mas sobretudo, para cantar o mundo novo que descobrira. Encontrou, finalmente o seu talento embora nunca venha a saber.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Vida de ministro

Um menino foi morto atropelado
ele atravessava a rua sem olhar pros lados.
Era filho do ministro
Coitado!

E o outro filho,
minha nossa que pecado.
Morto em cima de um banco
totalmente queimado!
Óh índios maus fazendo vingança social!

E o que dizer dos sobrinhos!?
Cento e onze sobrinhos,
mortos por balas perdidas
e mordidas de cão assassino.

Esse ministro exaltado
chega a ficar revoltado,
mas nada pode fazer
coitado!!