Dizia-se que o talento escondido em um canto qualquer da casa não o fez autor de grandes textos. Ele também não tinha sensibilidade para apreender o mundo ao redor, apreender as sutilezas dos gestos mais delicados entre as pessoas. Ele não tinha o talento essencial para se tornar um bom artista embora pretendesse ser um.
Ele quisera encontrar seu talento... procurou por horas em cada canto da casa e a casa sempre revelava quartos e salas que ele desconhecia. Pensou em desistir, mas a vontade de estar entre os grande autores não o deixou parar. procurava em baixo de cada móvel, dentro de cada vaso, entre as letras e melodias das músicas preferidas, entre as cores dos quadros prediletos, entre os peixes do aquário.
E como sempre acontece quando procuramos alguma coisa, achamos outras perdidas há muito tempo. Assim ele encontrou a técnica em oratória, a gramática, o dicionário. Ficou contente com o achado, pensara, na ocasião, que aquilo era suficiente para torná-lo um dos grandes mestres, quiçá o maior deles todos.
Então, munido com sua técnica em oratória, seu dicionário e sua gramática, ele começou a escrever. A princípio poemas (alexandrinos, camonianos; versos heróicos e sáficos; pentametros iâmbicos) tudo formalmente perfeito. Depois passou a escrever contos, estruturalmente, perfeitos. e também romances e peças teatrais. Mas faltava alguma coisa, suas palavras ainda não o faziam grande nem causava aos outros, alguma comoção. Ele não entendia, tinha tudo que um mestre das palavras precisava, todas a ferramentas, podia falar e escrever sobre tudo. Mas o que falta? Lembrou-se que embora tivesse todas as ferramentas, ainda não havia encontrado o talento e voltou a procurá-lo com mais vontade que da última vez. Olhou, novamente, atrás dos móveis, em baixo dos tapetes, nos armários da cozinha e no banheiro.
Cansado pensava em continuar a busca no dia seguinte, foi quando notou um brilho em baixo do sofá, havia olhado antes, mas não prestara atenção em brilho algum, mas agora estava lá. Um brilho discreto em meio a sombra do móvel. Ele levantou-se e foi até lá, ergueu o sofá e lá estava um pequeno pedaço de espelho refletindo a pouca luz que lhe alcançava. Um espelho, era somente um espelho. Durante algum tempo ficou a contemplar a imagem perdida no fundo do objeto, como se houvesse algo estranho e o espelho não refletisse a imagem que ele fazia de si, como se ele não fosse ele. Tentou se desfazer do espelho, não se reconhecia naquela imagem, mas inexplicavelmente o espelho se fixara na parede, e a cada dia, ele crescia. Cresceu ao ponto de tomar toda a parede de onde inevitavelmente refletia todo o interior da sala central da casa. Ele não podia mais fugir de quem era, e ele não era grande, e talvez nunca viesse a ser, via-se como realmente era.
Com o passar dos anos começara a ver-se diferente, estava verdadeiramente diferente. Quero ser eu mesmo, feliz com minhas qualidades e em paz com meus defeitos. Voltara-se pra si. Não quero ser maior do que sou, não quero alcançar o céu num salto nem mudar as estrelas de lugar, só me basta contemplá-las. É suficiente um arco-íris, um por do sol, um banho de chuva. Minha fantasia de grandeza se perdeu no reverso espelho, hoje me contenta falar do meu jardim, das primeiras flores que abriram, do meu abacateiro. Observar as pessoas que passam diante do meu portão. Hoje me contenta perceber como as pequenas coisas são grandes. .
Ele estava realmente mudado, adquirira agudeza de espírito, entendimento, inspiração. Seus poemas sem métrica, rima ou o rigor formal de outros tempos, mostravam-se cheios de sentido e significação, cheios de Poesia. Ele não escrevia para ser grande, mas sobretudo, para cantar o mundo novo que descobrira. Encontrou, finalmente o seu talento embora nunca venha a saber.
2 comentários:
Caro Neo-Pós-Contemporâneo, que texto profundo este. Adorei. Colocaria como palavra-chave deste texto ACEITAÇÃO.
Olá!!!
Realmente concordo com a Alessandra. O termo aceitação se encaixa perfeitamente neste texto.
Continue . . .
Cada vez descobrimos um lado desconhecido, escondido, perdido . . .
Ótimo!!!
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